{"id":279,"date":"2012-04-16T16:17:57","date_gmt":"2012-04-16T18:17:57","guid":{"rendered":"http:\/\/www.encontracopacabana.com.br\/noticias\/?p=279"},"modified":"2013-08-15T14:10:07","modified_gmt":"2013-08-15T16:10:07","slug":"bob-dylan-passeia-sozinho-pelas-ruas-de-copacabana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.encontracopacabana.com.br\/noticias\/bob-dylan-passeia-sozinho-pelas-ruas-de-copacabana\/","title":{"rendered":"Bob Dylan passeia sozinho pelas ruas de Copacabana"},"content":{"rendered":"<p>Procurar por Bob Dylan na tarde do Rio equivale a procurar pelo Eldorado no meio da Amaz\u00f4nia peruana. Como achar essa esp\u00e9cie de Greta Garbo do rock entre ciclistas e corredores marombados, mulatas sargentellianas, turistas franceses e alem\u00e3es com rostos t\u00e3o vermelhos que parecem o braseiro da churrascaria Porc\u00e3o? Dylan nunca quis ser encontrado, por que iria facilitar agora? Ainda assim, por conting\u00eancia profissional, n\u00e3o restava outra coisa a fazer a n\u00e3o ser buscar por ele quixotescamente pela estupenda tarde de domingo. A estrat\u00e9gia era a mais \u00f3bvia: um giro pelos hot\u00e9is mais estrelados do Rio.<\/p>\n<p>No Fasano, \u00e0s 13h, n\u00e3o restava outra coisa a n\u00e3o ser entrar e fingir naturalidade no restaurante, e pedir pelo que o dinheiro alcan\u00e7ava ali: um carpaccio de vieiras e uma ta\u00e7a de cabernet sauvignon chileno. Uma dica: rejeitar o couvert nunca \u00e9 um bom salvo-conduto para camuflar o bon\u00e9, o jeans pu\u00eddo e o t\u00eanis novinho. Todos v\u00e3o estranhar. Mas isso tudo s\u00f3 serviu para enrolar pouco mais de uma hora e meia, e n\u00e3o havia sinais da comitiva dylanesca por ali, apenas um cheiro caro de requinte e exclusividade.<\/p>\n<p>Do Fasano de Ipanema para o Copacabana Palace foi um pulo. Mas a piscina e o buffet lotados de s\u00f3sias de Jorginho Guinle n\u00e3o pareciam um bom ref\u00fagio para o bardo esquivo de Minnesota. Mais uns minutos enrolando ao p\u00e9 da est\u00e1tua de Ibrahim Sued, com sua famosa frase: &#8220;Adem\u00e3, que eu vou eu frente!&#8221;, e a inutilidade da empreitada come\u00e7ou a ficar mais penosa.<\/p>\n<p>Ok, Ibrahim, voc\u00ea venceu! O est\u00f4mago ronca, hora de dar um chap\u00e9u nas obriga\u00e7\u00f5es e ir at\u00e9 a cantina italiana que \u00e9 um cl\u00e1ssico desde 1976, tentando esquecer a frustra\u00e7\u00e3o de mais uma pequena ca\u00e7ada in\u00fatil aos mitos do rock &#8211; bailes famosos de Mick Jagger e Bono est\u00e3o na conta dessa peregrina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pouco antes das 16h, sa\u00edda pela esquerda, ap\u00f3s uma refei\u00e7\u00e3o que custava metade do couvert do Fasano, tomando o rumo da Avenida Nossa Senhora de Copacabana, para o t\u00e1xi final antes do show. Ao menos no show ele dar\u00e1 as caras, e a torcida \u00e9 para que essa noite promova novamente um encontro com a sua m\u00fasica mutante que inaugurou uma nova perspectiva para a arte contempor\u00e2nea. &#8220;Aquele cara de touca e casaco ali parece o Dylan&#8221;, diz uma amiga do rep\u00f3rter, desencanadamente. S\u00f3 o que faltava, um s\u00f3sia a essa hora, pensou o rep\u00f3rter. Mas a\u00ed o sujeito se virou para a avenida e o sangue gelou nas veias.<\/p>\n<p>&#8220;A m\u00e1quina! A m\u00e1quina! A m\u00e1quina! \u00c9 ele! \u00c9 ele MESMO!&#8221; Os segundos pareciam horas, a avenida parecia mais larga, e Dylan olhava para um lado e para o outro sem se decidir, parado na frente da banca de jornais da rua Inhang\u00e1. &#8220;No direction home&#8221;, como sempre. Se fosse para o outro lado, iria pegar mal correr atr\u00e1s dele. Mas a\u00ed ele veio para o lado da reportagem, tranquilamente, como se fosse parte da paisagem, sem causar nenhuma curiosidade nos velhinhos e nos c\u00e3es de estima\u00e7\u00e3o de Copacabana. Caminhando resoluto, com as m\u00e3os nos bolsos. Fez uma careta quando viu a m\u00e1quina fotogr\u00e1fica, mas n\u00e3o parou, continuou andando na dire\u00e7\u00e3o da lente, e passou por n\u00f3s aceleradamente.<\/p>\n<p>&#8220;Hey, Dylan!&#8221; Ele j\u00e1 ia sumindo na rua quando se voltou e respondeu com um grunhido: &#8220;You are a f&#8230; paparazzi!&#8221; N\u00e3o, n\u00e3o, n\u00e3o, jurava o rep\u00f3rter, querendo acreditar nas pr\u00f3prias palavras. &#8220;Para qu\u00ea a foto?&#8221;, ele perguntou. &#8220;Para o Facebook, para a gente mesmo&#8221;, mentiu o rep\u00f3rter. &#8220;Por qu\u00ea?&#8221;, ele ainda perguntou. &#8220;Porque voc\u00ea \u00e9 um dos importantes artistas do s\u00e9culo 20.&#8221;<\/p>\n<p>E ele sorriu. S\u00f3 a\u00ed ele relaxou. Pediu para a garota se aproximar, para que o rep\u00f3rter tirasse uma foto dele com ela. As m\u00e3os tremiam, o foco desapareceu, a rua desapareceu. Sorriu quando ela perguntou se estava se divertindo no Rio. &#8220;Eu adoro!&#8221; A reprtagem n\u00e3o sabia mais como mant\u00ea-lo ali. &#8220;Voc\u00ea est\u00e1 com fome?&#8221;, perguntou. Dylan acariciou a barriga com as m\u00e3os, fazendo o cl\u00e1ssico gesto de bucho cheio. &#8220;N\u00e3o mesmo.&#8221; E o rep\u00f3rter apontou: &#8220;\u00c9 que ali na rua de tr\u00e1s tem uma cantina italiana daquelas cl\u00e1ssicas, sabe aquelas que parecem frequentadas pela m\u00e1fia? Muito boa mesmo.&#8221; Ele se interessou: &#8220;Para l\u00e1?&#8221; Sim, eu disse. &#8220;Ok&#8221;, ele disse, sorrindo de novo, e mudou a dire\u00e7\u00e3o para a rua de tr\u00e1s. A reportagem resolveu deix\u00e1-lo em paz (mas aposta que ele viu os dois garotos pulando e se abra\u00e7ando no meio da rua como doidos).<\/p>\n<p><em>Fonte: Portal Revista Veja<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Procurar por Bob Dylan na tarde do Rio equivale a procurar pelo Eldorado no meio da Amaz\u00f4nia peruana. Como achar essa esp\u00e9cie de Greta Garbo do rock entre ciclistas e corredores marombados, mulatas sargentellianas, turistas franceses e alem\u00e3es com rostos t\u00e3o vermelhos que parecem o braseiro da churrascaria Porc\u00e3o? Dylan nunca quis ser encontrado, por [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[],"class_list":["post-279","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.encontracopacabana.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.encontracopacabana.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.encontracopacabana.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.encontracopacabana.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.encontracopacabana.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=279"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.encontracopacabana.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":281,"href":"https:\/\/www.encontracopacabana.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279\/revisions\/281"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.encontracopacabana.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=279"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.encontracopacabana.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=279"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.encontracopacabana.com.br\/noticias\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=279"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}